Deixe um comentário

Crimes, pecados, Allen e um ponto final

O Cinema tem, antes de tudo, o poder de retratar a visão de mundo de uma época e gravar, para sempre, os costumes da mesma. E se estamos falando sobre a vida como um todo, é justo admitir que a identidade e experiência de um diretor estão intimamente envolvidas no processo de se fazer um filme. Se escrever é um tipo de exorcismo pessoal, roteirizar e dirigir não estão nada longe disso. A prova está nos temas, cores e estilos que viram marca registrada de determinado cineasta. Até aí nenhuma novidade.

Com a marca de praticamente um filme por ano, falar sobre Woody Allen acaba em falar sobre suas características, que acaba fazer chover adjetivos tão marcantes que viraram previsíveis. Neurose, humor, confusões, fracassos e aquela coisa toda são comuns aos seus personagens. Suas histórias são bastante parecidas na grande maioria das vezes, mas, de alguma forma, não é algo piegas ou repetitivo, embora confusões e misturas entre elas sejam comuns.

É complicado fazer afirmações sobre fases ou estágios acerca dos trabalhos de um diretor atuante. O que se tem de fato (resultado de muitas pesquisas por aí) é que em 2000, Allen assinou com a DreamWorks e foi justamente nesta época (2000-2003) que muitos consideraram sua pior fase – temos: Trapaceiros (2000), O Escorpião de Jade (2001), Dirigindo no Escuro (2002) e Igual a tudo na vida (2003) – passando longe da notoriedade positiva e ganhando torcidas de nariz por parte do público – coisa que, inclusive, gerou boatos quanto a aposentadoria.

Crimes, pecados, Allen e um ponto final - woody

Durantes essas pesquisas, muitas entrevistas com o diretor surgiram pelo caminho e uma das coisas mais cômicas, mas talvez o uso dessa palavra não seja o mais adequado, é quando ele diz ser contra a mortalidade desde os cinco anos de idade. Para não pensar excessivamente sobre isso e não enlouquecer, ele indica a concentração no trabalho. Escrevendo isso, é impossível não se lembrar da cena no avião que enfrentava uma turbulência em Para Roma com Amor. Nela, Jerry (Allen) se agarra à esposa dizendo que ele não poderia passar por turbulências, pois é ateu. No mesmo filme, sua esposa diz que ele equaciona a aposentadoria com a morte.

Para alguém que teme tanto a morte, ouvir boatos de aposentadoria ou perceber que seu trabalho está perdendo a força, deve ter sido devastador ou impactante. O próprio afirmou, em uma dessas entrevistas, que evita ler o que dizem sobre ele, pois sua tendência é acreditar.

E aí vem o motivo de todo esse texto.

Crimes, pecados, Allen e um ponto final - match point

Em 2005, Woody Allen lançou Match Point, longa que foge por completo de qualquer característica antes mencionada. Nele estamos separados por um oceano de Nova York, embora o idioma continue sendo o inglês – um resquício, talvez? –, o próprio não está presente na atuação e o espaço para o drama foi novamente aberto. Sem tempo para ser engraçadinho, o filme, claramente baseado em Crime e Castigo, de Dostoiévski, conta a história de um jovem ambicioso que, vendo seu futuro em risco, toma medidas drásticas para salvar a própria pele.

A verdade é que a mudança é tão forte e tão única – não há outro filme do diretor que possa seguir este mesmo exemplo – que nem parece ser obra de Woody Allen. E talvez nem seja exatamente.

O ponto é:

Dezesseis anos antes de Match Point, foi lançado Crimes e Pecados (1989) que, dizem, foi resposta ao final bondoso encontrado em Hannah e suas irmãs, de 1986. Se é vero, não se sabe. O fato é que o filme de 1989 é sensivelmente parecido com Match Point: um dedicado pai de família e respeitado médico oftalmologista se vê em uma situação tensa quando uma mulher mais jovem, com quem vinha mantendo um caso, engravida e lhe cobra direitos – coisa que resultou em seu assassinato. Em paralelo, temos o próprio Woody Allen, que vivia Cliff – um fracassado produtor, cujo último trabalho só foi possível por conta do cunhado, que era um absoluto sucesso.

Crimes, pecados, Allen e um ponto final - crimes e pecados

O encontro entre Cliff e o médico, Judah, foi fundamental e ponto chave para tudo aqui. Cliff precisava de algo que fosse original, diferente, que lhe trouxesse o respeito de volta. Já o doutor, culpado, pesaroso, precisava se confessar sem pagar por causa disso.

JUDAH
Tenho uma ótima história de assassinato

CLIFF
É?

JUDAH
Um grande roteiro! Minha história tem um estranho desenlace.

Crimes, pecados, Allen e um ponto final

Quando Woody Allen se vê na mesma situação acontecida com Cliff, precisando de algo para que pudesse mostrar que era bom no que fazia, e afastando a ideia de morte da cabeça, ele resolve se dar a mesma chance que seu produtor tivera à época: dar vida ao roteiro soprado pelo doutor Judah, de Crimes e Pecados. Surgiria, então, Match Point.

Unindo o útil ao agradável, nada melhor que um filme para isso – onde Cliff e Allen estariam lançando algo totalmente diferente, “que nem parece dele”, e onde o médico estaria contando sua história para milhões de pessoas com a proteção da ficção.

A convergência e o significado que isso tem vão além do cinema – embora acabe voltando a ele, no final. Woody Allen deixou claro que consegue contornar situações – seja na ficção, seja no real – ora quando liquida alguém, ora quando se vê rejeitado pelas produtoras.

Rebecca Albino
Mariana Rodrigues

Anúncios

Sobre Rebecca Albino

só inventa!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: